Conceito básico de Persona
No teatro grego e posteriormente no romano, os atores vestiam máscaras para cada tipo de personagem que representavam. Como era preciso um pouco de ampliação na voz existia por dentro da máscara uma espécie de amplificador físico, em forma de funil. Por este fato a máscara recebeu o nome de "per sonare"[1] e depois transformou-se em "persone". Robertson coloca a questão de uma forma bem clara:

"Jung chamava de 'Persona' a face que apresentamos ao mundo, referindo-se com esse termo às máscaras que os gregos usavam em suas encenações de tragédias. Contudo, o uso desses personagens simbólicos dificilmente limita-se ao drama grego. Por exemplo, os japoneses têm máscaras semelhantes que usam em seu teatro Nô. Cada máscara representa um tipo fixo de caráter. Os balineses usam figuras simbólicas semelhantes em suas marionetes. As figuras burlescas de Punch e Judy, com seus personagens, são predileções perenes das crianças inglesas. E, embora não usem máscaras, os heróis e vilões dos faroestes americanos foram (até o dia em que surgiu o anti-herói) tipos de caráter igualmente fixos. Todos reconhecíamos o latifundiário malvado, o frio assassino de aluguel, a senhorita inocente em apuros, o médico alcoólatra, o balconista do saloon, durão com um coração de ouro, o herói puro como um floco de neve, e assim por diante." (ROBERTSON, 1995, p. 115).

A persona na qualidade de um arquétipo é própria de todo ser humano. Possui a qualidade de estar constantemente a se formar e constantemente a se modificar. Cabe a cada um, a cada ego, a constante identificação do que é o próprio ego e do que é persona. Deve-se usar uma máscara em cada situação da vida humana, mas deve-se saber trocá-la no momento oportuno e também saber que o ego não é a persona. Cacilda Santos coloca muito bem o paralelismo da formação da consciência com a formação da persona:

"Forma-se, em cada indivíduo, junto com a consciência, a medida que o ego se estrutura e, assim, permanece estreitamente relacionada com aquela e com o ego. Podemos mesmo dizer que a consciência, em grande parte, no início, se vai formando à custa da formação da persona, do amoldamento a que se vai submetendo o indivíduo no aprendizado de como viver no seu meio, de que maneiras e atitudes adequadas deve adquirir." (SANTOS, 1976, p. 10).

Ao lidar constantemente com o mundo exterior, vamos fabricando defesas para viver neste mundo, mundo de certa forma hostil. Uma parte da persona serve, portanto, para isolar o homem e para protegê-lo, é claro que uma outra parte interessa a própria sociedade que fica mais segura para lidar com um indivíduo que tem uma persona bem estruturada. Vejamos como ficam as palavras do nosso colega de São Paulo:

"O homem, como todo animal, tem uma necessidade imperiosa de se adaptar ao meio exterior, do qual depende para sua sobrevivência. Desenvolve, para isso, um sistema adaptativo-protetor que deve variar conforme as alterações desse meio. Entre os animais inferiores, podemos observar esse fato através da maneira como eles desenvolveram carapaças, aspectos repulsivos ou atraentes ou mecanismos, como o mimetismo, para passarem despercebidos aos seus predadores." (ULSON, 1988, p. 61).

Por fim, nada melhor do que as palavras do próprio Jung, através do glossário que ele colocou no final do seu livro "Tipos psicológicos", volume VI das Obras Completas, onde ele coloca os problemas e as dificuldades da confusão e fusão entre ego e persona:

"A identidade com a persona determina automaticamente uma identidade inconsciente com a alma pois, quando o sujeito, o eu, é indistinto da persona, não tem relação consciente com os processos do inconsciente. Ele é esses processos, é idêntico a isso. Quem é seu próprio papel exterior também sucumbirá infalivelmente aos processos internos, isto é, há de contrariar, por absoluta necessidade, seu papel exterior, ou vai levá-lo ao absurdo (v. enantiodromia). Fica, assim, excluída qualquer afirmação da linha individual e a vida transcorre em meio a contradições inevitáveis. Neste caso, a alma é sempre projetada num objeto real e correspondente, estabelecendo-se com este um relacionamento de dependência quase absoluta. Todas as reações oriundas desse objeto têm efeito direto e que toca o íntimo do sujeito. Trata-se, muitas vezes, de vínculos trágicos." (JUNG, 1991, p. 393).



[1] Latim, significa soar através de.
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